O uruguaio

Meu primeiro roteiro de filme aprovado e produzido aconteceu quando eu ainda era estagiário. No início de 1994, eu estagiava na JWT de São Paulo, e o briefing pedia um filme que divulgasse a promoção do drops Halls, do cliente Warner-Lambert, para a Copa do Mundo daquele ano.

Para concorrer a uma viagem para a Copa, que seria disputada nos EUA, o consumidor teria que mandar três embalagens de Halls para o endereço promocional.

Peguei como gancho o último jogo do Brasil nas eliminatórias, que havia acontecido no ano anterior. Nessa partida, a seleção tinha que vencer de qualquer jeito, jogando contra o Uruguai no Maracanã. O placar terminou 2 a 0 para o Brasil, os dois gols feitos pelo Romário. Convocado na última hora para salvar a pátria, o baixinho não negou fogo, classificando o Brasil e deixando o Uruguai de fora.

Em matéria de casting, foi uma superprodução. Nas arquibancadas do Canindé, estádio da Portuguesa, foi reunida uma torcida de quase uma centena de pessoas. No campo, eram dois times e um grupo de “jornalistas” à beira do gramado. O filme começava com o apito final do juiz e os jornalistas invadindo o campo. Corte para dois atores, um jornalista e o centroavante uruguaio. Para interpretar o centroavante, selecionamos um ator moreno claro, de cabelos bem pretos. Em tom sarcástico, o jornalista estendia o microfone para ele dizendo: “– Que chato, hein? Vocês não vão pra Copa…”. O jogador uruguaio, num perfeito portunhol, respondia na lata: “– Como assi? Estais lueco?? Claro que bámos! Ê sô rruntar três embalarrens…”, e dava todo o malho do texto.

Estávamos eu e meu saudoso avô José no sofá da sala de casa, assistindo TV, quando eis que o comercial entra no ar. Feliz da vida, falei quase gritando “– Olha, vô!! Eu que fiz esse comercial!”. Meu avô, que não escutava lá muito bem, balançou a cabeça afirmativamente e continuou prestando a maior atenção na TV. Eu mal respirava, sem saber se ele tinha entendido que o filme era meu. Ao final dos 30 segundos, ele se virou para mim, sem disfarçar a expressão de orgulho:

“– E não é que você ficou bem de uruguaio?”.

Com esse relato, faço aqui uma pequena homenagem a todas essas pessoas queridas que nunca vão entender direito o que a gente faz, mas que fazem a maior diferença na nossa vida.